Este eixo programático perspetiva a relação entre artesanato e indústria, não apenas na sua dimensão histórica e patrimonial, mas na lógica da contemporaneidade, enquanto domínio de criação, individual e coletiva (obra nova); de inovação (regeneração do paradigma económico, tendo como força motriz a criatividade); de inclusão social (não só dos locais, como de imigrantes); de inclusão territorial (relação urbano-rural) e de resiliência das comunidades. Privilegiar-se-á a relação entre indústria, stakeholders, criadores, públicos e agentes sócio-económicos.


Este eixo programático contempla o potencial da região nestes domínios, não só promovendo uma relação ativa, criativa e contemporânea com o património cultural, edificado e imaterial, como o envolvimento da comunidade em processos de co-criação e sinergias, na perspetiva de aproveitamento dos recursos locais (naturais e físicos; imateriais e intangíveis) para o desenvolvimento sustentável alicerçado nas indústrias criativas e na renovação da história e das narrativas identitárias ligadas à mono-indústria laneira. Contempla ainda a distinção entre o âmbito do têxtil, nas suas vertentes industriais e artesanais, desde as mais ligadas à componente projetual do debuxo, às tendências relacionadas com os novos materiais e usos, bem como um entendimento da Moda enquanto sector fundamental de atuação dos/as designers.


Este plano setorial visa:

  • a capacitação da cidade de instrumentos de promoção e disseminação de uma cultura empreendedora no território, perspetivando a consolidação de práticas e rotinas de apoio aos criadores e empreendedores (informação sobre o papel do Design nas indústrias e empresas, eventos, projetos e concursos);
  • consciencializar os agentes públicos e privados envolvidos nas transformações do território;
  • o desenvolvimento de políticas urbanas orientadas para o Design participativo, i.e., melhorar o planeamento urbano, envolvendo a comunidade local na identificação de problemas e necessidades;
  • promover a regeneração sustentável e criativa da cidade (revitalização de espaços devolutos, reabilitação, etc.);
  • regularizar a criação de soluções para a cidade numa lógica projetual (integração de arquitetos, designers e urbanistas na construção da cidade);
  • melhorar a qualidade de vida e fruição da cidade.

PS04. Design, Cultura e outras Artes

O Design, nas suas diversas vertentes, é um mediador entre as artes, as ciências e as tecnologias, indexando-as naturalmente ao campo da cultura e da criatividade. O Design compreende tanto a cultura visual como o entorno material, simbólico e mesmo alegórico, decorrente do paradigma da sociedade do espetáculo, com o intrínseco e variado leque de criadores, públicos e profissionais para os quais as implicações estéticas e culturais do Design exorbitam o âmbito estritamente disciplinar, seja ele mais erudito, mais popular, massificado ou autoral. Reciprocamente, os demais campos da criação e da criatividade, da música ao cinema, da arquitetura à dança, da literatura à fotografia, da performance aos jogos digitais, tanto convocam e integram, como se repercutem indelevelmente no Design, entendido simultaneamente enquanto arte, técnica e construção cultural, cujo carácter transmediático e híbrido fazem dele um signo da vida contemporânea e um poderoso reconfigurador do campo das artes e das humanidades, mas também das tecnologias e suas interfaces.


PS05. Design e Serviços Digitais

Com a capacidade de fornecer dados em tempo real, envolver os utilizadores e simular experiências da vida real com detalhes extremos, a Realidade Virtual e Aumentada tem um potencial enorme para transformar a cidade, o património, os serviços públicos e gerar interações com os cidadãos. As áreas de intervenção do Design na sociedade contemporânea ganham crescente espaço e significado. Para além das mensagens difundidas através dos suportes tradicionais, o Design tem um papel de relevo no que respeita ao desenvolvimento de conteúdos com recurso a novas tecnologias. O Design deixa de se preocupar apenas em desenhar produtos para passar a desenhar experiências e serviços, que operam mudanças no paradigma tecnológico, reconfiguram o espaço público, a partir da ubiquidade dos dispositivos e conteúdos transmediáticos. Neste domínio, destaca-se ainda o desempenho do Design na literacia mediática, na recuperação e reparação da memória histórica e do património industrial. O Design participativo e ativista transforma a realidade territorial, urbana e rural, estendendo-se inclusive aos contextos do turismo e do ensino-aprendizagem.


PS06. Educação para o Design e Cidadania

Este eixo programático contempla a integração dos sistemas educativos num paradigma participativo e democrático, a criação de políticas educativas para a promoção do Design junto da comunidade escolar e a sensibilização das crianças para a compreensão do Design enquanto instrumento de resposta a problemáticas da sociedade, necessidades e aspirações, abarcando diferentes tipologias e escalas de intervenção. Num tempo caracterizado pela emergência ecológica, pelos efeitos do neo-liberalismo económico e pela constante ameaça a direitos humanos fundamentais, o Design vem abraçando causas que, embora partindo da sua matriz projetual, rompem com a circunscrição disciplinar e com muitas das convenções académicas e profissionais que o têm caracterizado. O Design relaciona-se com múltiplos aspetos da vida em comum, mediando relacionamentos e projetando respostas a questões prementes de cidadania, assumindo por vezes grande pendor ideológico e político.

Rui A. L. Miguel

Presidente do Conselho Estratégico da Candidatura

O Valor do Design na Covilhã

A candidatura da Covilhã a Cidade Criativa da UNESCO em Design é o corolário natural da importância que a indústria de lanifícios tem representado na história da cidade. O respetivo Plano de Ação 2022-2024 é vasto, diverso nas temáticas e culturalmente robusto, e respeita de forma transversal o embrião desta candidatura, a indústria da lã da Covilhã e o design que no seu âmago foi sendo desenvolvido, extravasando para a cidade e região, influenciando os seus modos de vida, mas também se constituindo numa fértil herança cultural, económica, social e técnica e, por isso, numa inesgotável fonte de inspiração.

O debuxo dos tecidos tem sido reconhecido ao longo dos anos como a alma da atividade industrial, influenciando por osmose o comportamento da sociedade. Assim, o design tem estado presente nas fábricas e na cidade, de uma forma espontânea, genuína e orgânica, embora sem se ter essa consciência, numa altura em que a intervenção do design não tinha ainda a intensidade e abrangência que tem hoje.

Com efeito, durante muitas décadas o projeto dos tecidos de lã foi gerido pelos debuxadores que se destacavam na classe por serem os de maior sucesso no mercado e que assumiam, aos olhos de hoje, o papel de “designers”. O projeto dos tecidos de lã constitui uma envolvência única de processos de design, desde logo visando a satisfação dos consumidores e a competitividade das empresas, assentando no desenvolvimento técnico e estético, que para além das mais evidentes, os padrões e o debuxo, contempla intervenções fantásticas de conhecimento intrínseco, mas também de sensibilidade experimental. Para ilustrar, refiram-se a elaboração iterativa das mesclas até às cores idealizadas; a subtil intensidade de feltragem dos tecidos de lã para alcançar o desejado design de superfície; a definição do toque e do cair dos tecidos, que transporta para uma atmosfera de emoções dominada pelos sentidos, resultando da mediação do design entre a sensibilidade estética do debuxador e os seus conhecimentos técnicos; a reutilização de desperdícios pré e pós-consumo, antecipando os conceitos de sustentabilidade e economia circular, através, por exemplo, da introdução do desperdício da penteação, constituído por fibras curtas, na composição de fios cardados.

O Plano de Ação 2022-2024 confronta a indústria da lã de ontem com a de hoje e realça o papel do design em ambas e na sociedade. É importante relevar o efeito da herança cultural ao longo dos tempos, nas fábricas e na cidade, bem como alimentar a circularidade das influências do design da indústria para a comunidade e vice-versa. Neste sentido, seguramente que o efeito multiplicador do design conduzirá, através da investigação e da criatividade, ao aumento da criação de valor nas empresas. Pretende-se que o design, enquanto mediador, continue a ter um papel motor no palpitar da “cidade fábrica” e no seu desenvolvimento global e sustentável, potenciado agora pela condição da Covilhã como “cidade do conhecimento”. Esta importância da mediação responsabiliza também o design pela valorização da dimensão intangível que compreende um conjunto rico de símbolos associados à indústria da lã, os quais constituem o impulso fertilizante da “fábrica” da criatividade e inovação.

José Vicente Doutorado na área do Design Sustentável e Licenciado em Design pela Faculdade de Arquitetura Universidade Técnica de Lisboa

Refletir sobre uma matriz (in)sustentável

PS01 Design, Indústria e Artesanato

A cultura material é um dos principais fatores diferenciadores do Homem enquanto espécie e apresenta uma grande diversidade de país para país, de região para região. Ela evoluiu de forma significativa ao longo dos tempos e contribuiu para suprir as necessidades das comunidades e afirmar a identidade de cada cultura. No entanto, o nosso tremendo sucesso enquanto espécie – com um crescimento demográfico exponencial e uma enorme voracidade por recursos – acoplou a essa cultura material efeitos secundários ambientais de tal ordem nefastos que, para além do impacte no ambiente, têm já consequências no próprio ser Humano.

Sendo o design a disciplina que, por excelência, permite materializar o presente e projetar o futuro, ela ganha uma crescente centralidade no contexto contemporâneo em que a cultura material, bem como todo o modus operadi da sociedade, tem que se submeter a um processo de transição que promova uma mudança efetiva de paradigma para a sustentabilidade, enquadrada pela Agenda 2030 e os seus objetivos.

A matriz conceptual de um plano de ação de uma candidatura à rede UNESCO Cidade Criativa do Design deve partir, por um lado, do estimulo ao aprofundamento da reflexão sobre o papel do design nesse processo e, por outro, do fomento à experimentação de soluções com todos os agentes do território, nomeadamente os que têm uma intervenção direta na construção da identidade da cultura material, como os designers, artesãos e os industriais. É, no entanto, essencial saber ler a identidade da Covilhã e território envolvente, o peso que o design teve e têm na cidade, pois este ADN único será central na construção de uma nova visão e no desenvolvimento de propostas diferenciadoras.

Capacidade de análise do contexto, liberdade para discussão desassombrada com parceiros locais, nacionais e internacionais e recursos de operacionalização são alguns dos elementos essenciais para sucesso deste desafio, que requer o envolvimento e trabalho de todos.


Cristina L. Duarte Doutorada e licenciada em Sociologia pela NOVA/ FCSH, com pós-graduação em Estudos Sobre as Mulheres.

O futuro da Moda: recuperar e reimaginar

PS02 Design Têxtil e Moda

Das várias camadas implícitas no estudo da moda, há uma que se distingue, a visível. Sendo também a mais superficial, não deixa de nos conduzir ao mais profundo da sociedade, do local ao global.

Entre tantas camadas, como fio que corre, a memória solta-se em fragmentos de vivências, quase como pequenos instantes, todos ligados numa tela gigante chamada vida.

Social, o tecido conta uma história. Ou melhor, várias histórias. Pela passagem repetida de um fio, tecemos uma memória colectiva, através de formas de te ver Covilhã, cidade e serra. Com histórias de vida dos protagonistas que trabalham ou trabalharam no mundo fabril dos têxteis e do vestuário.

Instante és. Construção serás. Do trabalho de campo, ao da edição: de recolha de histórias, experiências de vida com passado dentro, mais densas ou mais leves, para figurarem em livros, formato papel e electrónico, inspirarem peças têxteis para uma edição-cápsula de jovens designers, até ao projecto de fundo e de folgo: uma série documental em vídeo, tecida e tintada com as cores e as formas da história do design de moda em Portugal, a partir de 1974, à volta de influências, escolas e afinidades.

Graciosidade das cores. Tomar certa cor, ou sentir-lhe a ausência. Neste capítulo, o vestuário completa-nos o ser, devolve-nos por inteiro à sociedade envolvente.

No feminino e no masculino. O discurso sem palavras ditado pela moda, ensaiando na história e também fora dela uma indumentária sem género.  O vestuário inscreve-nos no hoje. Por agora, é tudo.


Debuxo

Rita Salvado
Diretora do Museu de Lanifícios. Professora Auxiliar da UBI. Doutorada em Engenharia Têxtil.

PS02 Design Têxtil e Moda


A cultura material é um dos principais fatores diferenciadores do Homem enquanto espécie e apresenta uma grande diversidade de país para país, de região para região. Ela evoluiu de forma significativa ao longo dos tempos e contribuiu para suprir as necessidades das comunidades e afirmar a identidade de cada cultura. No entanto, o nosso tremendo sucesso enquanto espécie – com um crescimento demográfico exponencial e uma enorme voracidade por recursos – acoplou a essa cultura material efeitos secundários ambientais de tal ordem nefastos que, para além do impacte no ambiente, têm já consequências no próprio ser Humano.

Sendo o design a disciplina que, por excelência, permite materializar o presente e projetar o futuro, ela ganha uma crescente centralidade no contexto contemporâneo em que a cultura material, bem como todo o modus operadi da sociedade, tem que se submeter a um processo de transição que promova uma mudança efetiva de paradigma para a sustentabilidade, enquadrada pela Agenda 2030 e os seus objetivos.

A matriz conceptual de um plano de ação de uma candidatura à rede UNESCO Cidade Criativa do Design deve partir, por um lado, do estimulo ao aprofundamento da reflexão sobre o papel do design nesse processo e, por outro, do fomento à experimentação de soluções com todos os agentes do território, nomeadamente os que têm uma intervenção direta na construção da identidade da cultura material, como os designers, artesãos e os industriais. É, no entanto, essencial saber ler a identidade da Covilhã e território envolvente, o peso que o design teve e têm na cidade, pois este ADN único será central na construção de uma nova visão e no desenvolvimento de propostas diferenciadoras.

Capacidade de análise do contexto, liberdade para discussão desassombrada com parceiros locais, nacionais e internacionais e recursos de operacionalização são alguns dos elementos essenciais para sucesso deste desafio, que requer o envolvimento e trabalho de todos.

Covilhã, Cidade Criativa: dos fios aos desafios

Elisa Calado Pinheiro
Licenciada em História pela FLUL, foi fundadora e primeira diretora do Museu de Lanifícios da UBI, instituição onde foi docente.

PS02 Design Têxtil e Moda


A Covilhã é uma cidade singular e única no panorama nacional. A alma de “cidade-fábrica”[1] que ainda a enforma é o resultado de um longo percurso, documentado historicamente desde a atribuição da Carta de Foral, em 1186, até ao presente, caracterizado pela presença de algumas unidades fabris de lanifícios de dimensão europeia e pela produção e consumo da lã, a fibra natural que lhe moldou a identidade.

Este milenar percurso foi-se inscrevendo no tecido urbano, a partir das habitações que serviram aos covilhanenses, simultaneamente, de lar e de oficina têxtil. A partir do século XV, a produção dos “panos covilhães” estimulou o aperfeiçoamento das operações de acabamento e de tinturaria, começando a ser construídas as primeiras oficinas especializadas nestas operações, sustentadas por capitais maioritariamente de cristãos-novos. Por intervenção direta do Estado foram criadas na Covilhã duas importantes manufaturas, a primeira no século XVII e a segunda no século XVIII, que contribuíram para fortalecer a produção de lanifícios a nível nacional. A partir de então, o tecido urbano começou a ser pontuado pela construção de novas fábricas, de iniciativa privada, que, na década de trinta do século XX, atingiram a centena e meia. A cidade ganhou o estatuto de centro histórico dos lanifícios portugueses, vindo a ser igualmente reconhecida a nível europeu. Como em todas as cidades e regiões de mono-indústria fortemente enraizada no território, o complexo mundo fabril moldou o microcosmos covilhanense. Conformou fisicamente o território e gerou uma mundividência sedimentada pela dicotomia entre paisagens de planície e de montanha e pelas experiências e ritmos de vida que imprimiu a gerações continuadas, transformando a Covilhã numa cidade de cores fortes e profundos contrastes. Estes mantiveram-se cadenciados pelas fugazes pausas e os absorventes tempos de trabalho, pautados pelos silvos das sirenes das fábricas e pelo matraquear dos teares que ecoaram, num tempo longo, pelas ruelas estreitas da vila que, tardiamente, e em razão da indústria, se fez cidade. Permaneceram bem visíveis na acentuada bipolarização social vivenciada, confrontando agricultores e pastores, negociantes e fabricantes, cristãos-novos e cristãos-velhos e, sobretudo, patrões e operários. Estas dolorosas fraturas sociais só a partir de inícios do terceiro milénio começaram lentamente a esbater-se, acompanhando o ressurgimento de uma cidade que começou a projectar-se como “amável”, após a profunda alteração do paradigma até então vigente, em resultado da crise estrutural da mono-indústria de lanifícios que a moldara e a obrigou a reinventar-se.

A História e a memória permanecem inscritas no território  e nas mundividências dos covilhanenses, impregnando o nosso presente de densos fios do passado e de promissores desafios de futuro. Um tão impactante passado industrial é não só a mais significativa referência identitária da comunidade covilhanense, mas, igualmente, um património a preservar devido à dimensão nacional e europeia desta herança milenar. Importa acentuar o genius loci e o carácter singular da paisagem construída, porquanto só por esta via esta histórica paisagem industrial poderá vir a transformar-se numa verdadeira “paisagem, cultural evolutiva”, tal como a vimos defendendo [2].

São inúmeras as fontes materiais e imateriais resultantes deste longo processo evolutivo que importa continuar a preservar com o recurso às mais diversas metodologias científicas. Impõe-se, no presente, avaliar, atualizar e colocar ao serviço dos cidadãos os resultados dos processos de patrimonialização já realizados aos mais diversos níveis na Covilhã, desde as exemplares intervenções de musealização, às de inventariação patrimonial, passando pelos registos de História Oral e a criação de bases de dados de apoio ao Design,  e concretizar os que urge vir a implementar, concitando o empenho das instituições locais, regionais e nacionais vocacionadas para esta imperiosa intervenção de “conservação ativa” do património industrial covilhanense. Para o efeito ela terá que ser assumida pelos orgãos do poder político local, pelas empresas e ainda através da participação ativa dos cidadãos.

A partir de então, poderá vir a concretizar-se o lema escolhido para nortear a Autarquia covilhanense – “Covilhã: a tecer o futuro”, uma vez que só fortalecendo os fios da História se poderão enfrentar com esperança os desafios perspectivados para os novos tempos.

Como defendeu Fernando Pessoa “ (…) o presente é todo o passado e todo o futuro/ E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas (…) ”[3] e como, algum tempo depois, subscreveu T. S. Elliot ”O tempo presente e o tempo passado/ Estão ambos presentes no tempo futuro/ E o tempo futuro contido no tempo passado”[4].

Alicerçada pelos fios da memória e da História, será esta uma frutuosa seiva a servir de fermento aos processos criativos que projectarão vigorosamente a Covilhã como uma singular Cidade Criativa.


[1] GERALDES, Manuel Nunes (1880) – A Covilhã no Centenário, Lisboa: Lallement Fréres Typ., p. 20.

[2] PREITE, Massimo (2008) – “Du paysage industriel au paysage culturel évolutif”. Patrimoine de l’industrie: resources, pratiques, cultures. The International Commitee for the Conservation of the Industrial Heritage, TICCIH (revue), Torino, Italy n.º 20, [53-59].

[3] “Ode Triunfal”, 1914, Álvaro de Campos, Poemas.

[4] Tradução do original “Time present and time past/Are both perhaps present in time future,/And time future contained in time past./If all time is eternally present/All time is unredeemable“. T. S. Eliot, “Burnt Norton”, Four Quartets, 1935. PROENÇA, Sérgio Barreiros ( 2014) – “A resistência da forma urbana. A persistência dos traços na forma da cidade”. Cadernos de Morfologia urbana. Estudos da cidade portuguesa. O tempo e a forma 2. Lisboa: Argumentum, p. 33.

Projeto

Giulia Bonali
Docente e investigadora de Estudos de Moda na Polimoda International Institute of Fashion, Florença

PS02 Design Têxtil e Moda



Identificar o potencial da produção tradicional local da Covilhã, identificando e experimentando novas aplicações, implementando novas ideias criativas, criando uma ligação entre designers internacionais e empresas locais. O objectivo passa igualmente por um relançamento da produção numa óptica sustentável e de circularidade. Isto permitirá à actividade tradicional da cidade iniciar um processo de renovação tanto no campo criativo como produtivo, colocando as empresas em condições de enfrentar o desafio da transição para a Economia Circular, inscrita como tema prioritário para a Comissão Europeia.

Acções

  1. Mapeamento das empresas têxteis locais e análise da sua produção, mercados de referência, aplicações de materiais e projectos de investigação em curso. Elaboração de um relatório final, que permitirá identificar as necessidades das empresas e pontos estratégicos para o relançamento da produção.
  2. Análise do arquivo têxtil do Museu de Lanifícios, para identificar ideias e temas que possam interessar a uma comunidade de criativos que pretende trabalhar com os materiais produzidos pela cidade. Os arquivos geralmente representam uma fonte enorme para aqueles que procuram criar algo novo. Os tecidos da Covilhã têm uma forte conotação da identidade do território e podem ser um excelente ponto de partida para imaginar novas aplicações, respeitando a tradição. Os materiais identificados serão catalogados e colocados à disposição dos interessados, em colaboração com o Museu.
  3. Organização de um projecto de residência reservado a 6 designers seleccionados em concurso internacional. Os designers hospedados terão a oportunidade de desenvolver os seus projectos, em colaboração com empresas locais, para chegar à criação de protótipos reais que podem ser apresentados em feiras e eventos do sector. Serão seleccionados três projetos na área da Moda e três na área do Design.
  4. Workshop sobre Economia Circular orientado sobretudo para os cidadãos e camadas mais jovens da população, (a ideia é estendê-los também às empresas locais, mas com estratégia) através do estudo do tratamento de resíduos, o fim de vida dos produtos. Os participantes estarão envolvidos numa série de actividades para abordar a questão da sustentabilidade produtiva de forma activa e partilhada.O uso de novos materiais ou materiais alternativos de menor impacto também será testado.
  5. Organização de um projeto editorial final que inclua toda a documentação das residências. Uma espécie de traçado do que foi pensado, feito e realizado. A ideia é criar uma publicação dedicada aos têxteis, moda e design, com o objetivo de apresentar o trabalho dos designers e dar oportunidade às empresas de apresentarem os seus projectos.

Design, Cidade e Território

Mónica Romãozinho
Professora da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior

João Neves
Designer de comunicação e docente do ensino superior na Escola Superior de Artes Aplicadas de Castelo Branco

PS03 Design, Cidade e Território


A Covilhã enquanto território corresponde a um cenário ímpar a vários níveis. Não só funciona como entrada do Parque Natural da Serra da Estrela, reserva da Biosfera Natura 2000 e Geopark da Unesco, como integra recursos de valor inestimável como as ribeiras da Goldra e da Carpinteira que estimularam a implantação estratégica de indústrias têxteis e o desenvolvimento da própria cidade. Existe uma cultura de projecto e de desenho. A arquitectura fabril ou civil acompanhou correntes internacionais como o Eclectismo, a Arte Nova, a Art Déco e ainda o Movimento Moderno. Aliado a este progressismo, é de referir o importante papel do Design presente no debuxo dos tecidos, na modernidade da maquinaria e tecnologia das fábricas, na evolução da respectiva identidade corporativa. Sendo os eixos fundamentais da candidatura a história local, estratégia e desenvolvimento, artes/design ligadas à lã e aos tecidos, equacionámos um modelo de ação na perspectiva do Design para o Território, mas também do Design enquanto Território, sustentável, inclusivo e potenciador do desenvolvimento da cidade e da região. A mesma proposta vai de encontro aos dezassete objetivos da Agenda 2030 da ONU e também de instrumentos de promoção e disseminação de uma cultura empreendedora no território, de que é exemplo o Plano Estratégico Regional de Empreendedorismo e Captação de Investimento, iniciativa da Rede de Empreendedorismo das Beiras e Serra da Estrela, tendo como parceiros a  Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela (CIMBSE), a Universidade da Beira Interior (UBI), o Instituto Politécnico da Guarda (IPG)  e o Núcleo Empresarial da Região da Guarda (NERGA).  Encarámos esta candidatura fundamentalmente como um motor de promoção do Design enquanto estratégia impulsionadora do desenvolvimento de empresas e indústrias, de processos de produção mais sustentáveis, de produtos de melhor qualidade, de comunidades com melhores condições de vida e de trabalho. Falamos de um Design essencialmente participativo enquanto resposta a problemáticas específicas designadamente do interior do país, centrado no utilizador e enquanto fator de valor para as populações, para o meio-ambiente, para o tecido produtivo nacional. Por outro lado, a persecução do modelo de acção proposto viabilizará uma série de importantes actividades de sensibilização para o impacto do Design ao nível do desenvolvimento económico sustentável, da competitividade, da criatividade, da inovação, da aproximação entre Design e empresas, da promoção da inclusão e de boas práticas de ordenamento territorial e salvaguarda ambiental.

A criatividade nas ruas da cidade

Luís Nogueira
Presidente do Departamento de Artes da UBI, onde é Professor Auxiliar.

PS03 Design, Cultura e outras Artes


Existe uma cultura do design? Uma cultura antes e depois do design? Uma civilização do design? Conseguimos imaginar uma cultura sem design ou um design sem cultura?

E onde está a arte do design? Podemos falar de uma arte pré e uma arte pós design? E uma poética do design, existe? Quais os seus princípios, os seus limites, as suas possibilidades? Claro que existiu um mundo – milenar, por sinal – sem design. E, no entanto, se é possível pensar ou imaginar um mundo sem design, esse não será, não é, não pode ser, o nosso mundo.

E porque precisamos de design? Porque vivemos. Mas, sobretudo, porque fazemos coisas e usamos coisas para fazer outras coisas. Na realidade, quanto mais nos afastamos da natureza mais precisamos do design – aliás, poderíamos dizer que o design começa quando nos separamos da natureza e aumenta quanto mais dela nos distanciamos –, sempre em busca da ação perfeita, da solução completa, da vida plena.

Uma arte do mínimo? Less is more, diz Van der Rohe. Do custo mínimo? More for less, segundo Buckminster Fuller. E o design: mera utilidade? E o ornamento: um crime? Como sabemos de Oscar Wilde: all art is quite useless. Seria aqui que os siameses – design e arte – se separariam? Menos forma e mais função, e teríamos design? Mais forma e menos função, e teríamos arte? E depois do design, o que aconteceu à arte? Nas artes pós-design, onde está o design? Talvez no sound design, no production design, no game design, no character design, no narrative design, no level design, no speculative design, no exhibition design, no interface design, no design de moda, no design gráfico, na design fiction. Ou no human design, nova iteração dos mitos primordiais da criação: Deus e Adão ou Pigmalião e Galateia.

Em tempos falava-se de poéticas, hoje falamos de processos criativos e metodologias projetuais: refletir, envolvendo especialistas, estudiosos, docentes e investigadores; criar, envolvendo estudantes, autores, artistas e colaboradores. Em think tanks, talks, laboratórios, estúdios, estruturas, exposições, palestras, conferências, ciclos, instalações, prospeção, incubação, disseminação, co-work, festivais, oficinas, manifestos, protestos e muito mais.

Por princípio, a atenção ao local é imperativa nesta candidatura. Mas não se pode olhar apenas para dentro. Um olhar global é imprescindível. Portanto, precisamos: criação local com impacto global. Dito de outro modo: o digital vernacular ao lado do artesanal cosmopolita.

E como seria se um dia, por um dia, todas as parcerias acontecessem em simultâneo? Se os cursos da UBI, as associações culturais, as escolas, todas as entidades, todos os cidadãos, saíssem à rua e celebrassem o design, as artes e a cultura por um dia, um só dia que fosse? E se a cidade se transformasse num gabinete de curiosidades, numa base de dados, num atlas mnemónico, num multiverso e numa heterocronia? Que cidade criativa seria.

Tecer o Metaverso

Joana Casteleiro-Pitrez
Professora de Design na Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior

PS05 Design e Serviços Digitais


A cultura material é um dos principais fatores diferenciadores do Homem enquanto espécie e apresenta uma grande diversidade de país para país, de região para região. Ela evoluiu de forma significativa ao longo dos tempos e contribuiu para suprir as necessidades das comunidades e afirmar a identidade de cada cultura. No entanto, o nosso tremendo sucesso enquanto espécie – com um crescimento demográfico exponencial e uma enorme voracidade por recursos – acoplou a essa cultura material efeitos secundários ambientais de tal ordem nefastos que, para além do impacte no ambiente, têm já consequências no próprio ser Humano.

Sendo o design a disciplina que, por excelência, permite materializar o presente e projetar o futuro, ela ganha uma crescente centralidade no contexto contemporâneo em que a cultura material, bem como todo o modus operadi da sociedade, tem que se submeter a um processo de transição que promova uma mudança efetiva de paradigma para a sustentabilidade, enquadrada pela Agenda 2030 e os seus objetivos.

A matriz conceptual de um plano de ação de uma candidatura à rede UNESCO Cidade Criativa do Design deve partir, por um lado, do estimulo ao aprofundamento da reflexão sobre o papel do design nesse processo e, por outro, do fomento à experimentação de soluções com todos os agentes do território, nomeadamente os que têm uma intervenção direta na construção da identidade da cultura material, como os designers, artesãos e os industriais. É, no entanto, essencial saber ler a identidade da Covilhã e território envolvente, o peso que o design teve e têm na cidade, pois este ADN único será central na construção de uma nova visão e no desenvolvimento de propostas diferenciadoras.

Capacidade de análise do contexto, liberdade para discussão desassombrada com parceiros locais, nacionais e internacionais e recursos de operacionalização são alguns dos elementos essenciais para sucesso deste desafio, que requer o envolvimento e trabalho de todos.