
Rui A. L. Miguel
Presidente do Conselho Estratégico da Candidatura
O Valor do Design na Covilhã
A candidatura da Covilhã a Cidade Criativa da UNESCO em Design é o corolário natural da importância que a indústria de lanifícios tem representado na história da cidade. O respetivo Plano de Ação 2022-2024 é vasto, diverso nas temáticas e culturalmente robusto, e respeita de forma transversal o embrião desta candidatura, a indústria da lã da Covilhã e o design que no seu âmago foi sendo desenvolvido, extravasando para a cidade e região, influenciando os seus modos de vida, mas também se constituindo numa fértil herança cultural, económica, social e técnica e, por isso, numa inesgotável fonte de inspiração.
Planos Setoriais
Este eixo programático perspetiva a relação entre artesanato e indústria, não apenas na sua dimensão histórica e patrimonial, mas na lógica da contemporaneidade, enquanto domínio de criação, individual e coletiva (obra nova); de inovação (regeneração do paradigma económico, tendo como força motriz a criatividade); de inclusão social (não só dos locais, como de imigrantes); de inclusão territorial (relação urbano-rural) e de resiliência das comunidades. Privilegiar-se-á a relação entre indústria, stakeholders, criadores, públicos e agentes sócio-económicos.
Este eixo programático contempla o potencial da região nestes domínios, não só promovendo uma relação ativa, criativa e contemporânea com o património cultural, edificado e imaterial, como o envolvimento da comunidade em processos de co-criação e sinergias, na perspetiva de aproveitamento dos recursos locais (naturais e físicos; imateriais e intangíveis) para o desenvolvimento sustentável alicerçado nas indústrias criativas e na renovação da história e das narrativas identitárias ligadas à mono-indústria laneira. Contempla ainda a distinção entre o âmbito do têxtil, nas suas vertentes industriais e artesanais, desde as mais ligadas à componente projetual do debuxo, às tendências relacionadas com os novos materiais e usos, bem como um entendimento da Moda enquanto sector fundamental de atuação dos/as designers.
Este plano setorial visa:
- a capacitação da cidade de instrumentos de promoção e disseminação de uma cultura empreendedora no território, perspetivando a consolidação de práticas e rotinas de apoio aos criadores e empreendedores (informação sobre o papel do Design nas indústrias e empresas, eventos, projetos e concursos);
- consciencializar os agentes públicos e privados envolvidos nas transformações do território;
- o desenvolvimento de políticas urbanas orientadas para o Design participativo, i.e., melhorar o planeamento urbano, envolvendo a comunidade local na identificação de problemas e necessidades;
- promover a regeneração sustentável e criativa da cidade (revitalização de espaços devolutos, reabilitação, etc.);
- regularizar a criação de soluções para a cidade numa lógica projetual (integração de arquitetos, designers e urbanistas na construção da cidade);
- melhorar a qualidade de vida e fruição da cidade.
O Design, nas suas diversas vertentes, é um mediador entre as artes, as ciências e as tecnologias, indexando-as naturalmente ao campo da cultura e da criatividade. O Design compreende tanto a cultura visual como o entorno material, simbólico e mesmo alegórico, decorrente do paradigma da sociedade do espetáculo, com o intrínseco e variado leque de criadores, públicos e profissionais para os quais as implicações estéticas e culturais do Design exorbitam o âmbito estritamente disciplinar, seja ele mais erudito, mais popular, massificado ou autoral. Reciprocamente, os demais campos da criação e da criatividade, da música ao cinema, da arquitetura à dança, da literatura à fotografia, da performance aos jogos digitais, tanto convocam e integram, como se repercutem indelevelmente no Design, entendido simultaneamente enquanto arte, técnica e construção cultural, cujo carácter transmediático e híbrido fazem dele um signo da vida contemporânea e um poderoso reconfigurador do campo das artes e das humanidades, mas também das tecnologias e suas interfaces.
Com a capacidade de fornecer dados em tempo real, envolver os utilizadores e simular experiências da vida real com detalhes extremos, a Realidade Virtual e Aumentada tem um potencial enorme para transformar a cidade, o património, os serviços públicos e gerar interações com os cidadãos. As áreas de intervenção do Design na sociedade contemporânea ganham crescente espaço e significado. Para além das mensagens difundidas através dos suportes tradicionais, o Design tem um papel de relevo no que respeita ao desenvolvimento de conteúdos com recurso a novas tecnologias. O Design deixa de se preocupar apenas em desenhar produtos para passar a desenhar experiências e serviços, que operam mudanças no paradigma tecnológico, reconfiguram o espaço público, a partir da ubiquidade dos dispositivos e conteúdos transmediáticos. Neste domínio, destaca-se ainda o desempenho do Design na literacia mediática, na recuperação e reparação da memória histórica e do património industrial. O Design participativo e ativista transforma a realidade territorial, urbana e rural, estendendo-se inclusive aos contextos do turismo e do ensino-aprendizagem.
Este eixo programático contempla a integração dos sistemas educativos num paradigma participativo e democrático, a criação de políticas educativas para a promoção do Design junto da comunidade escolar e a sensibilização das crianças para a compreensão do Design enquanto instrumento de resposta a problemáticas da sociedade, necessidades e aspirações, abarcando diferentes tipologias e escalas de intervenção. Num tempo caracterizado pela emergência ecológica, pelos efeitos do neo-liberalismo económico e pela constante ameaça a direitos humanos fundamentais, o Design vem abraçando causas que, embora partindo da sua matriz projetual, rompem com a circunscrição disciplinar e com muitas das convenções académicas e profissionais que o têm caracterizado. O Design relaciona-se com múltiplos aspetos da vida em comum, mediando relacionamentos e projetando respostas a questões prementes de cidadania, assumindo por vezes grande pendor ideológico e político.
Curadores

José Vicente
Doutorado na área do Design Sustentável e Licenciado em Design pela Faculdade de Arquitetura Universidade Técnica de Lisboa
Refletir sobre uma matriz (in)sustentável
PS01 Design, Indústria e Artesanato
A cultura material é um dos principais fatores diferenciadores do Homem enquanto espécie e apresenta uma grande diversidade de país para país, de região para região. Ela evoluiu de forma significativa ao longo dos tempos e contribuiu para suprir as necessidades das comunidades e afirmar a identidade de cada cultura. No entanto, o nosso tremendo sucesso enquanto espécie – com um crescimento demográfico exponencial e uma enorme voracidade por recursos – acoplou a essa cultura material efeitos secundários ambientais de tal ordem nefastos que, para além do impacte no ambiente, têm já consequências no próprio ser Humano.

Cristina L. Duarte
Doutorada e licenciada em Sociologia pela NOVA/ FCSH, com pós-graduação em Estudos Sobre as Mulheres.
O futuro da Moda: recuperar e reimaginar
PS02 Design Têxtil e Moda
Das várias camadas implícitas no estudo da moda, há uma que se distingue, a visível. Sendo também a mais superficial, não deixa de nos conduzir ao mais profundo da sociedade, do local ao global.
Entre tantas camadas, como fio que corre, a memória solta-se em fragmentos de vivências, quase como pequenos instantes, todos ligados numa tela gigante chamada vida.

Rita Salvado
Diretora do Museu de Lanifícios. Professora Auxiliar da UBI. Doutorada em Engenharia Têxtil.
Debuxo
PS02 Design Têxtil e Moda
A cultura material é um dos principais fatores diferenciadores do Homem enquanto espécie e apresenta uma grande diversidade de país para país, de região para região. Ela evoluiu de forma significativa ao longo dos tempos e contribuiu para suprir as necessidades das comunidades e afirmar a identidade de cada cultura. No entanto, o nosso tremendo sucesso enquanto espécie – com um crescimento demográfico exponencial e uma enorme voracidade por recursos – acoplou a essa cultura material efeitos secundários ambientais de tal ordem nefastos que, para além do impacte no ambiente, têm já consequências no próprio ser Humano.

Elisa Calado Pinheiro
Licenciada em História pela FLUL, foi fundadora e primeira diretora do Museu de Lanifícios da UBI, instituição onde foi docente.
Covilhã, Cidade Criativa: dos fios aos desafios
PS02 Design Têxtil e Moda
A Covilhã é uma cidade singular e única no panorama nacional. A alma de “cidade-fábrica”[1] que ainda a enforma é o resultado de um longo percurso, documentado historicamente desde a atribuição da Carta de Foral, em 1186, até ao presente, caracterizado pela presença de algumas unidades fabris de lanifícios de dimensão europeia e pela produção e consumo da lã, a fibra natural que lhe moldou a identidade.

Giulia Bonali
Docente e investigadora de Estudos de Moda na Polimoda International Institute of Fashion, Florença
Projeto
PS02 Design Têxtil e Moda
Identificar o potencial da produção tradicional local da Covilhã, identificando e experimentando novas aplicações, implementando novas ideias criativas, criando uma ligação entre designers internacionais e empresas locais. O objectivo passa igualmente por um relançamento da produção numa óptica sustentável e de circularidade. Isto permitirá à actividade tradicional da cidade iniciar um processo de renovação tanto no campo criativo como produtivo, colocando as empresas em condições de enfrentar o desafio da transição para a Economia Circular, inscrita como tema prioritário para a Comissão Europeia.

Mónica Romãozinho
Professora da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior

João Neves
Designer de comunicação e docente do ensino superior na Escola Superior de Artes Aplicadas de Castelo Branco
Design, Cidade e Território
PS03 Design, Cidade e Território
A Covilhã enquanto território corresponde a um cenário ímpar a vários níveis. Não só funciona como entrada do Parque Natural da Serra da Estrela, reserva da Biosfera Natura 2000 e Geopark da Unesco, como integra recursos de valor inestimável como as ribeiras da Goldra e da Carpinteira que estimularam a implantação estratégica de indústrias têxteis e o desenvolvimento da própria cidade. Existe uma cultura de projecto e de desenho. A arquitectura fabril ou civil acompanhou correntes internacionais como o Eclectismo, a Arte Nova, a Art Déco e ainda o Movimento Moderno. Aliado a este progressismo, é de referir o importante papel do Design presente no debuxo dos tecidos, na modernidade da maquinaria e tecnologia das fábricas, na evolução da respectiva identidade corporativa. Sendo os eixos fundamentais da candidatura a história local, estratégia e desenvolvimento, artes/design ligadas à lã e aos tecidos, equacionámos um modelo de ação na perspectiva do Design para o Território, mas também do Design enquanto Território, sustentável, inclusivo e potenciador do desenvolvimento da cidade e da região. A mesma proposta vai de encontro aos dezassete objetivos da Agenda 2030 da ONU e também de instrumentos de promoção e disseminação de uma cultura empreendedora no território, de que é exemplo o Plano Estratégico Regional de Empreendedorismo e Captação de Investimento, iniciativa da Rede de Empreendedorismo das Beiras e Serra da Estrela, tendo como parceiros a Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela (CIMBSE), a Universidade da Beira Interior (UBI), o Instituto Politécnico da Guarda (IPG) e o Núcleo Empresarial da Região da Guarda (NERGA). Encarámos esta candidatura fundamentalmente como um motor de promoção do Design enquanto estratégia impulsionadora do desenvolvimento de empresas e indústrias, de processos de produção mais sustentáveis, de produtos de melhor qualidade, de comunidades com melhores condições de vida e de trabalho. Falamos de um Design essencialmente participativo enquanto resposta a problemáticas específicas designadamente do interior do país, centrado no utilizador e enquanto fator de valor para as populações, para o meio-ambiente, para o tecido produtivo nacional. Por outro lado, a persecução do modelo de acção proposto viabilizará uma série de importantes actividades de sensibilização para o impacto do Design ao nível do desenvolvimento económico sustentável, da competitividade, da criatividade, da inovação, da aproximação entre Design e empresas, da promoção da inclusão e de boas práticas de ordenamento territorial e salvaguarda ambiental.

Luís Nogueira
Presidente do Departamento de Artes da UBI, onde é Professor Auxiliar.
A criatividade nas ruas da cidade
PS03 Design, Cultura e outras Artes
Existe uma cultura do design? Uma cultura antes e depois do design? Uma civilização do design? Conseguimos imaginar uma cultura sem design ou um design sem cultura?
E onde está a arte do design? Podemos falar de uma arte pré e uma arte pós design? E uma poética do design, existe? Quais os seus princípios, os seus limites, as suas possibilidades? Claro que existiu um mundo – milenar, por sinal – sem design. E, no entanto, se é possível pensar ou imaginar um mundo sem design, esse não será, não é, não pode ser, o nosso mundo.

Joana Casteleiro-Pitrez
Professora de Design na Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior
Tecer o Metaverso
PS05 Design e Serviços Digitais
A cultura material é um dos principais fatores diferenciadores do Homem enquanto espécie e apresenta uma grande diversidade de país para país, de região para região. Ela evoluiu de forma significativa ao longo dos tempos e contribuiu para suprir as necessidades das comunidades e afirmar a identidade de cada cultura. No entanto, o nosso tremendo sucesso enquanto espécie – com um crescimento demográfico exponencial e uma enorme voracidade por recursos – acoplou a essa cultura material efeitos secundários ambientais de tal ordem nefastos que, para além do impacte no ambiente, têm já consequências no próprio ser Humano.
